26 de setembro de 2016

Setembro Azul - Dia Nacional do Surdo | A representatividade na fantasia

Outro dia fiz uma postagem falando sobre o Setembro Amarelo da prevenção ao suicídio e acabei dando algumas dicas de escrita para autores que quisessem falar do assunto. Mas setembro também é o Setembro Azul, um mês que guarda datas que foram muito importantes para as conquistas dos surdos e da comunidade surda1 do mundo todo. Hoje, 26 de setembro, é o Dia Nacional do Surdo, e sexta, dia 30, é o Dia Internacional do Surdo.

Há também várias outras datas no mês de setembro relacionadas à surdez, como o dia 10, em que é comemorado o Dia das Línguas de Sinais, e o dia 21, que é o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência.


Os blogs que fazem parte da Iniciativa BLU decidiram fazer postagens sobre o assunto, o que significa que o SI&F vai participar da blogagem coletiva.

Confira os posts dos demais blogs:

Como o SI&F é um blog literário e sobre escrita, minha ideia inicial era recomendar livros de fantasia que tivessem personagens surdos, mas pesquisei e pesquisei e encontrei bem poucos (se você lembrar de algum, fique à vontade para indicar). O que na verdade não me impressionou muito, porque personagens com alguma deficiência física em livros de fantasia são bastante raros e muitas vezes não são protagonistas e nem chegam a ter um papel importante na história.

Então são apenas três livros para a nossa listinha:

Título: A Espada do Verão (Magnus Chase e os Deuses de Asgard #1)
Autor: Rick Riordan
Ano de publicação: 2015
Editora: Intrínseca
Sinopse: Às vezes é necessário morrer para começar uma nova vida...
A vida de Magnus Chase nunca foi fácil. Desde a morte da mãe em um acidente misterioso, ele tem vivido nas ruas de Boston, lutando para sobreviver e ficar fora das vistas de policiais e assistentes sociais. Até que um dia ele reencontra tio Randolph - um homem que ele mal conhece e de quem a mãe o mandara manter distância. Randolph é perigoso, mas revela um segredo improvável: Magnus é filho de um deus nórdico.
As lendas vikings são reais. Os deuses de Asgard estão se preparando para a guerra. Trolls, gigantes e outros monstros horripilantes estão se unindo para o Ragnarök, o Juízo Final. Para impedir o fim do mundo Magnus deve ir em uma importante jornada até encontrar uma poderosa arma perdida há mais de mil anos. A espada do verão é o primeiro livro de Magnus Chase e os deuses de Asgard, a nova trilogia de Rick Riordan, agora sobre mitologia nórdica.

Li esse livro ano passado, mas acabei não fazendo resenha. Você vai encontrar poucos elementos inovadores em relação aos livros anteriores do Rick Riordan, mas a escrita dele tem alguma coisa viciante, que me faz querer ler toda história nova que ele publica, e, em resumo, é uma aventura bem divertida. Mas não podemos reclamar de não haver representatividade nas séries de Rick Riordan, pelo menos nas últimas que ele vem publicando. Em A Espada do Verão, primeiro volume da série Magnus Chase e os Deuses de Asgard, temos Hearthstone, um elfo surdo. A surdez não ganha um enorme destaque no livro, mas Hearthstone é um personagem até que bem explorado para os padrões de Riordan e toma parte na aventura diversas vezes, sem ninguém duvidar dele por causa de sua deficiência. É uma boa pedida para aqueles momentos em que você precisa de uma leitura leve e descompromissada.
    
Título: Às vezes eu ouço minha voz em silêncio
Autora: Priscilla Matsumoto
Ano de publicação: 2015
Editora: Independente
Sinopse: Às vezes eu ouço minha voz em silêncio reúne histórias que dialogam com o fantástico, protagonizadas por personagens femininas em busca da própria linguagem. Às voltas com o silêncio, a repressão e a obscuridade, essas mulheres encaram as consequências originadas pela descoberta da própria voz.

Estou terminando de ler o livro Às vezes eu ouço minha voz em silêncio, coletânea de contos de Priscilla Matsumoto (que muito carinhosamente o cedeu para que eu pudesse ler e resenhar aqui no blog). São vários contos, todos eles com um quê de fantasia, todos apresentando, de alguma forma, os personagens mais diversos — especialmente mulheres. Nos vários contos que compõem a antologia, temos pessoas homossexuais, transexuais, negras, idosas, cegas — e, em um dos contos, Autonomia, temos uma personagem surda. É um conto bem curto, mas, como todos os demais, marcante, e eu o recomendo junto de todo o restante da coletânea.

Título: Silêncio
Autora: Richelle Mead
Ano de publicação: 2016
Editora: Galera Record
Sinopse: Pelo que Fei se lembra, nunca houve um ruído em seu vilarejo e todos são surdos. Na montanha, ou se trabalha nas minas ou na escola, e as castas devem ser respeitadas. Quando algumas pessoas começam também a perder a visão, inclusive a irmã de Fei, ela se vê obrigada a agir e a desrespeitar algumas leis.
O que ninguém sabe é que, de repente, ela ganha um aliado: o som, e ele se torna sua principal arma. Ao seu lado, segue também um belo e revolucionário minerador, um amigo de infância há muito afastado em função do sistema de castas.
Os dois embarcam em uma jornada grandiosa, deixando a montanha para chegar ao vale de Beiguo, onde uma surpreendente verdade mudará suas vidas para sempre. Fei não demora a entender quem é o verdadeiro inimigo, e descobre que não se pode controlar o coração.

Esse eu ainda não li, mas, como diz a sinopse, há personagens surdos — um vilarejo inteiro, com exceção da protagonista. Como não li, não posso dizer se o assunto foi bem retratado, mas nem parece ser tanto o foco, já que a protagonista ganha a audição e se afasta do vilarejo em dado momento da história. Já li outras duas séries da Richelle Mead, Academia de Vampiros e Bloodlines, e, embora tenha gostado das duas (não fiz resenha aqui no blog), especialmente da trama e da forma como o mito dos vampiros foi utilizado, tem bastante romance, e é bem provável que Silêncio também tenha, então pode não ser a melhor opção para quem não gosta ou já cansou.

E foi isso o que eu li ou consegui encontrar pesquisando na internet (mais uma vez, se tiver recomendações, fique à vontade). O que mostra que há bem pouco interesse em representar personagens com deficiência (ou pertencentes a qualquer outro tipo de minoria) na fantasia, em especial nos livros de fantasia voltados para adultos. Mas, como é o tema do post, vamos focar na surdez.

Ao longo da semana passada andei fazendo algumas pesquisas sobre o assunto e aprendi muitas coisas sobre a surdez, além de ter encontrado alguns blogs bem legais de pessoas surdas. E, navegando nesses blogs, eu vi várias vezes as pessoas afirmarem que ter uma deficiência não os torna dignos de pena, coitados ou pessoas improdutivas. A surdez obviamente tem grande impacto sobre as vidas dessas pessoas e gera muitas dificuldades, mas elas continuam sendo seres humanos com medos, desejos, contas a pagar, problemas a resolver. Elas têm suas profissões, seus hobbies, amigos e família.

Então por que seus personagens não poderiam ter? Por que seu herói surdo também não poderia viver sua própria aventura? Há milhares de posts pela internet falando sobre a representatividade (até bem melhor do que eu poderia falar), então vou ser bem curta e direta aqui: ela é sim importante (note que não usei a palavra “obrigatória”). Nada impede que um surdo leia uma história protagonizada por um personagem ouvinte (não que eles pareçam ter muita opção) e a aprecie, assim como eu não deixo de gostar de histórias protagonizadas por personagens masculinos. Mas tente imaginar como seria interessante para uma pessoa nessa condição ler uma história em que o protagonista é surdo e enfrenta os vilões e todos os demais problemas e adversidades que surgem pelo caminho sem ver sua deficiência como um obstáculo para isso.

Mais uma vez, não estou aqui para dizer que você é obrigado a representar pessoas surdas (ou qualquer outro grupo de pessoas) em sua história. Se você não pretende fazer isso — seja porque não se sente confortável falando sobre o tema, porque não acredita que possui conhecimento suficiente do assunto ou simplesmente porque não quer —, você não é obrigado. Eu só estou convidando você, escritor (especialmente se for de fantasia), a refletir sobre isso e, quem sabe, considerar incluir personagens surdos em seu livro.

Pretendo, na sexta, fazer um post reunindo algumas dicas sobre como escrever personagens surdos, como fiz naquele sobre suicídio, mas, como você já sabe que uma das dicas será “pesquise”, vou deixar aqui algumas recomendações de livros e blogs sobre o assunto:

Título: Pérolas da minha surdez
Autora: Nuccia de Cicco
Ano de publicação: 2016
Editora: wwlivros
Sinopse: Música, buzina, despertador e então... silêncio. Como se acostumar a não ter som e precisar aprender a se comunicar novamente?
As pessoas dizem verdadeiras pérolas sobre surdez, pois a maioria desconhece o assunto. Não compreendem o que é lidar com a ausência de um sentido tão importante, algo que sempre teve, sempre fez parte da sua vida, até o perder. E, então, ter de reinventar todas as suas verdades.
Nesta obra, a autora narra experiências de sua vida após o diagnóstico de surdez total irreversível, buscando ampliar o (re)conhecimento sobre o tema na sociedade. São histórias singulares, divertidas e complicadas, sobre paixões, curiosidades, tecnologias, preconceito, aprendizado e, principalmente, luta e força de vontade.
Um livro que trilha o caminho em direção dos que almejam encontrar respeito, aceitação e voz.

O livro Pérolas da minha surdez é da autoria de Nuccia De Cicco, que também está participando da Iniciativa BLU sobre o Setembro Azul e nos ajudou bastante durante a escrita de nossos posts (fica aqui o meu agradecimento!). Você pode saber um pouco mais sobre o livro no blog da autora.

Título: Crônicas da Surdez
Autora: Paula Pfeifer
Ano de publicação: 2013
Editora: Plexus
Sinopse: Nesta obra, Paula Pfeifer discute um assunto que, por vezes, se torna tabu; a deficiência auditiva, que tanto afeta a comunicação e a interação humanas. Porém, a autora passa longe da autocomiseração e mostra que os surdos podem e devem levar uma vida feliz, independente e produtiva. Dividido em três partes, o livro relata como Paula lidou com as dificuldades e as agruras da surdez, traz textos que ela escreveu no blogue Crônicas da Surdez, além de apresentar depoimentos emocionantes de leitores. Temas como preconceito, tecnologia, mercado de trabalho e bullying são apresentados de forma leve, sem julgamentos, permitindo aos deficientes auditivos, a seus familiares e a profissionais de saúde refletir sobre as experiências cotidianas e sobre a capacidade de superação inerente a todos nós.

Título: Novas crônicas da surdez: epifanias do implante coclear
Autora: Paula Pfeifer
Ano de publicação: 2015
Editora: Plexus
Sinopse: Nesta obra, Paula Pfeifer conta como foi perder a audição desde a infância até chegar à surdez bilateral profunda aos 31 anos e, então, fazer um implante coclear e voltar a ouvir. A jornada em direção ao som foi cheia de altos e baixos, e o livro mostra com sinceridade os melhores e os piores momentos desse caminho: da decisão de fazer a cirurgia aos meses seguintes à ativação dos eletrodos.





Título: Desculpe, não ouvi!
Autora: Lak Lobato
Ano de publicação: 2014
Editora: Atitude Terra
Sinopse: A alegria contagiante de Lak Lobato ao voltar a ouvir – graças a um bem-sucedido implante coclear bilateral – pode ser comparada à euforia de um bebê quando aprende a falar.
A experiência com os sons, as descobertas, o riso espontâneo, a alegria da comunicação. Entretanto, diferentemente do bebê, Lak é adulta e consegue refletir sobre seu encantamento, sobre a importância da audição e a beleza dos sons que nos rodeiam.
Esse olhar – e esses ouvidos – atento ao universo sonoro no qual nós vivemos é o tema desse livro.


Blogs:


***


Bem, espero que você tenha gostado do post e que eu tenha te proporcionado alguma boa reflexão. Sexta-feira, como já mencionado, voltarei a falar do assunto!

1Nem todos os surdos fazem parte da comunidade surda, assim como há ouvintes nesta comunidade.

2 comentários :

  1. Oi, Laís!
    Sua postagem ficou linda, bem completinha!!!
    Então, realmente é complicado encontrar personagens surdos, especialmente em fantasia, mas você já achou 3 livros! Eu conheço mais alguns, mas são romances: como Talvez um dia (Coollen Hoover), Seduzida por um Guerreiro Escocês (Maya Banks), Mãos ao Vento (Sylvia Lia Grespan Neves). A maioria é mesmo acadêmico ou biográfico. Espero eu poder contribuir para mudar isso e aumentar a representatividade literária dos surdos. Beijos mil e muito obrigada pela indicação do meu livro!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Nuccia!
      Que bom que gostou da postagem! E muito obrigada pelas indicações de livros e pela visita!

      Abraços!

      Excluir

Sinta-se à vontade para deixar opiniões, dúvidas e sugestões. Se tiver um blog, deixe o link ao final de seu comentário para que eu possa visitá-lo.

Ao comentar, tenha bom senso (ou leia isto), de modo a evitar que seu comentário não seja publicado.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...