20 de setembro de 2016

Resenha | Fantasias Urbanas

Título: Fantasias Urbanas
Autor: Eric Novello (organizador), Antônio Luiz M. C. Costa, José Roberto Vieira, Tiago Toy, Carlos Orsi, Douglas MCT, Rafael Lima, Ana Cristina Rodrigues, Erick Santos Cardoso, Rober Pinheiro
Ano de publicação: 2012
Editora: Draco
Número de páginas: 220
Sinopse: O gênero fantasia vive um excelente momento no Brasil e no mundo, marcando presença nas listas de best-sellers, conquistando espaço na prateleira dos leitores e até despertando certa devoção. Sofrendo influência de gêneros que vão do policial ao terror, a fantasia é um território onde não há limites para a imaginação.Parte integrante desse sucesso, as cidades onde se passam as histórias acabam ficando tão conhecidas quanto os personagens que as habitam, entrando para o imaginário de seus leitores como verdadeiras referências.Fantasias Urbanas é uma visita guiada pelo organizador Eric Novello a mundos fantásticos muito diferentes entre si, mas todos com um ponto em comum: a união entre entretenimento e qualidade. Nove autores irão levá-lo por esse passeio: Ana Cristina Rodrigues, Antonio Luiz M. C. Costa, Carlos Orsi, Douglas MCT, Erick Santos Cardoso, José Roberto Vieira, Rafael Lima, Rober Pinheiro e Tiago Toy. Os destinos incluem encontros com reis, castelos e magia; visitas a necromantes vindos de Atlântida; julgamentos em sociedades movidas a vapor; fugas no meio de tiroteios, metamorfos e leões gigantes; paradas para descansar em uma cidade prisão com um homem-morcego e seu rei-máquina; tensões entre um casal em crise no meio de um apocalipse zumbi; descobertas de um mundo tomado por deuses, múmias e vampiros; e rituais sombrios de revirar as entranhas, tudo isso para para proporcionar uma excelente viagem.

A antologia Fantasias Urbanas foi organizada por Eric Novello e reúne nove contos de diferentes autores, todos eles explorando, de diferentes formas, a cidade. Ao pegar esse livro, eu esperava contos bem diferentes. Na verdade, esperava contos com ambientações que costumamos ver em livros rotulados como fantasia urbana: arranha-céus, fábricas, poluição, mistério, uma ambientação moderna. Entretanto, pouquíssimos contos seguem essa ambientação, e isso não foi ruim. Na verdade, gostei de ver várias formas diferentes de se explorar uma cidade.

Abaixo, vocês podem conferir o que achei de cada conto:

Agora pode ser contado (Antônio Luiz M. C. Costa)


Agora pode ser contado foi um conto que me deixou com o pé atrás no começo, pois logo nas primeiras linhas somos apresentados a um discurso de um personagem, o que me fez esperar por uma narrativa enfadonha relatando um acontecimento distante. Entretanto, esse estilo de narrativa se mostrou adequado: é leve, divertido e, ao contrário do que eu esperava, fez com que eu me sentisse dentro da história. A personalidade do protagonista, Kimichin, transbordou para a narrativa, que também foi eficiente em fazer o worldbuilding. Claro que é um conto e não temos espaço para ver muita coisa, entretanto, do que foi apresentado, dá para perceber que é um universo coerente e bem construído. Eu consegui sentir a cidade: grande, movimentada e multicultural. E que, certamente, desempenhou seu papel na história. Quanto aos personagens, também foram bem caracterizados considerando a extensão do conto. Não tiveram suas personalidades exploradas a fundo, mas, ainda assim, são convincentes e interessantes.


O Monge (José Roberto Vieira)


O Monge começou bem, apresentando ao leitor um mundo interessante — e cheio de tecnologias diferentes. A protagonista é Syrah, que tem como missão defender um criminoso — ela pertence ao exército e é uma nookin, sendo que atua como uma espécie de advogada. E, no início, é também uma personagem interessante e caracterizada de forma coerente: determinada, mas um pouco inocente por estar em início de carreira e em uma cidade desconhecida. Porém, enquanto o mundo e a personagem são interessantes, a trama não me agradou. No começo até estava indo bem e me prendeu, mas achei que foi para um caminho um tanto óbvio e, no final, a decisão da protagonista não teve tanto impacto quanto se esperava. Senti que o conto não foi extenso o suficiente para apresentar todo o contexto cultural ou a história de vida da personagem que teriam tornado a decisão mais convincente e, quem sabe, surpreendente. Outro problema que talvez tenha sido responsável pela minha decepção é que algumas coisas a respeito de uma guerra que foi mencionada não foram bem explicadas, e no final foram essenciais para a trama.


Heroína (Tiago Toy)


Esse foi um conto interessante e bem narrado. Sob o ponto de vista de dois personagens (dois namorados), acompanhamos o que eu poderia chamar de um apocalipse zumbi. E, apesar de ser o tipo de trama que não foge muito do óbvio e que final nem me surpreendeu tanto assim, acabei gostando. A narrativa em terceira pessoa foi eficiente em passar todo o clima de medo, tensão e desespero que dominou a cidade retratada nesse conto (cujo nome não foi mencionado). Os personagens também não têm nome, mas apesar disso são convincentes como seres humanos, que na loucura que se instaurou, têm como objetivo premente encontrar um ao outro. Só me incomodou a forma como foi retratado o relacionamento entre os dois: são aquele tipo de casal em que um não consegue viver sem o outro e em que estar junto é a coisa mais importante de tudo, ainda que cada um tenha sua vida e seus próprios objetivos. É o tipo de relacionamento que não soa real — ao menos não para mim. Outro problema foi que não há nenhuma separação entre os trechos sob os pontos de vista dele e dela (nem mesmo uma linha em branco), o que, já que eles não têm nome, causou certa confusão.


Antropomaquia (Carlos Orsi)


Antropomaquia nos apresenta a um futuro em que os mortos — vampiros, múmias, etc. — predominam em nosso mundo. E têm como objetivo exterminar os humanos. O objetivo do protagonista é justamente deter esse extermínio, e para isso ele tem de aprender mais sobre os mortos. Desse modo o acompanhamos, enquanto ele se disfarça como uma múmia e se infiltra entre os mortos, e conhecemos um pouco de um mundo inusitado. As particularidades do mundo dos mortos prendem à história e entendemos um pouco como funciona sua rixa com os humanos (mas apenas o suficiente para que possamos compreender a motivação do protagonista). Não esperava grande aprofundamento do personagem em um conto, e, embora ele até seja interessante, não consegui me conectar a ele, não consegui me importar. O que me prendeu mesmo foi o universo construído e a tensão e o mistério que aumentam aos poucos. O final é deixado em aberto e, embora seja possível deduzir o que se sucede, senti que a melhor parte foi deixada para a imaginação, quase como se o autor pretendesse produzir uma continuação.


Onde termina o inferno (Douglas MCT)


Neste conto, o protagonista deve ajudar uma garota a recuperar suas coisas roubadas, o que o leva a uma cidade para enfrentar um inimigo formidável. A trama, ainda que interessante, não me surpreendeu muito, mas, ainda assim, o conto é divertido e bem narrado e explora um universo interessante e bem construído. Minha única ressalva é quanto aos personagens: são muitos personagens para a extensão do conto, o que faz com que não seja possível caracterizá-los devidamente. Desse modo, não consegui me apegar a nenhum deles.


A Cidade Perdida (Rafael Lima)


A Cidade Perdida narra a história de um soldado banshee que foi capturado e acorda em uma cidade lendária. Com essa premissa, o conto é interessante, no entanto, achei que a narrativa conta demais, então não consegui me sentir na cidade dos limps e o mistério por trás da cidade e do tesouro que ela guarda não me empolgou tanto quanto poderia. No entanto, mesmo com a escrita um tanto corrida demais, achei o universo interessante e criativo, assim como o sistema de magia. Também não consegui me conectar aos personagens: achei que não foram muito bem caracterizados, e a natureza banshee do protagonista não foi tão bem explorada (tanto que ele não parece tão diferente do soldado humano sarcástico e ganancioso que já vi em outras histórias).


O Rei-Máquina (Ana Cristina Rodrigues)


Esse foi um dos que mais gostei. Narra a história de Ibis, uma espécie de anjo caído (entretanto, com asas de morcego) que aguarda, na lúgubre Cidade sem Nome, a tarefa que trará sua redenção. O momento finalmente chega e ele é conduzido pelas morrigans até uma prisão, sem saber ao certo qual a tarefa que o aguarda.

A narrativa é muito boa, do tipo que faz o leitor se sentir dentro da história. Apesar disso, começou no tempo verbal presente e depois mudou para o passado, sem que o motivo tenha ficado claro para mim. A trama não segue um caminho muito óbvio, desenrolando-se de forma interessante até o final, que apesar de não ser tão inesperado, foi adequado à história e muito satisfatório. Todo o conto se foca apenas em Ibis e no Rei-Máquina, portanto seu desenvolvimento ficou bom para uma história tão curta (ainda que eu tenha gostado mais de Ibis).


Em Nome das Mães (Erick Santos Cardoso)


O inquisidor Roni Bocatorti é responsável por investigar o assassinato de duas jovens, que aparentemente foram mortas em um ritual de magia negra. É ambientado em um universo diferente e interessante, em que a religião é bastante restritiva e radical.

Por ser um conto de investigação, eu imaginei que o clima de mistério fosse estar mais presente, mas, no final, Bocatorti foi o foco. E, ainda que o universo seja interessante e a personalidade devota de Bocatorti tenha transbordado para a narrativa, achei que a resolução do mistério não teve tanto impacto e talvez não tenha ganhado o destaque que deveria. Parte da decepção, porém, pode ter acontecido pelo fato de os outros personagens não terem sido bem caracterizados, e sua motivação para o crime foi trabalhada de forma bastante superficial.


A alma boa de Viens (Rober Pinheiro)


Num certo dia, o vilarejo onde Viens vivia foi dizimado e ele, o único sobrevivente, levado como prisioneiro para a Cidade. Com essa premissa, o conto vai para um caminho que eu não esperava, mas que me agradou muito. A narrativa é em terceira pessoa, e foi eficiente em me prender à história e me deixar curiosa para a resolução do mistério. Em relação aos personagens, achei que Viens poderia ter sido um pouco mais explorado, pois, dado o enredo mais intimista, eu esperava ver uma mudança, ainda que mínima, e se sabe muito pouco sobre como ele era antes de ser capturado. Afora isso, porém, o conto me agradou muito.


***


Como sempre, acabei gostando mais de uns que de outros. Meus favoritos, dentre todos, foram Agora pode ser contado, Rei-Máquina e Antropomaquia (apesar de eu não ter gostado tanto do final). Em resumo, é um livro que eu recomendo muito, pois além de você ter amostras do estilo de escrita dos autores, vários dos contos fizeram a leitura valer à pena.

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Sinta-se à vontade para deixar opiniões, dúvidas e sugestões. Se tiver um blog, deixe o link ao final de seu comentário para que eu possa visitá-lo.

Ao comentar, tenha bom senso (ou leia isto), de modo a evitar que seu comentário não seja publicado.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...