16 de setembro de 2016

Especial Contos de Taverna | Entrevista: Mogg Mester

Hoje tem entrevista no SI&F! A vítima da vez é Mogg Mester, autor parceiro do blog que está presente na antologia Contos de Taverna, do Clube de Autores de Fantasia, com o conto Osbarg. Abaixo, ele fala um pouco sobre si, seu processo de escrita, seu conto na antologia e muito mais.


Confira:

Sonhos, Imaginação & Fantasia: Em primeiro lugar, deixe que os leitores te conheçam: fale um pouco sobre você.
Mogg Mester: Antes de tudo sou uma pessoa. Um sonhador incorrigível que perdeu a fé na humanidade. Com um background como esse, me formei em Medicina Veterinária em 2006 e em Psicologia em 2015. Tenho Pós-graduação em Inspeção de produtos de origem animal e estou me Pós-graduando em Psicossomática calcada na teoria Junguiana. Trabalho com Vigilância de Zoonoses na Prefeitura de Camaçari, como veterinário, e com atendimento a pacientes no Ambulatório de Doenças Neuromusculares, como Psicólogo egresso, na EBMSP, em Salvador, Bahia. Além disso sou um aventureiro em outras áreas: sei um pouco (bem pouquinho) de desenho, aprendia algo sobre taxidermia (empalhar animais) e sou joalheiro. Hoje me aventuro um pouco na modelagem em cera de joias. Não podia faltar a escrita, mais uma de minhas personas e aquela que, junto com a da Psicologia, mais gosto.

SI&F: O que te despertou o desejo de passar histórias para o papel (ou para a tela)?
M. M.: Eu sempre quis escrever, mas tinha uma dificuldade monstruosa com português. As regras boçais da gramática e dos gramáticos me entediavam quando mais jovem (e ainda me entediam muito ), a ponto de haver me mantido longe da atividade literária até os 24 anos. Antes disso fiz umas poesias soltas como catarse, ou alguns continhos, que terminei por jogar fora. Cheguei a esboçar aos meus 11 anos meu primeiro livro, algo com relação a vampiros, mas meu pai e meu tio descobriram, invadiram minha privacidade da forma mais bruta possível e riam de mim. Joguei tudo fora. O fato de virar piada me afastou da literatura até os 25 anos, quando tudo mudou. O que me fez escrever? Dois fatores importantes: 1 – minha paixão por vilões e 2- uma pessoa que me fez entender essa paixão não como algo patológico, mas como uma questão de senso estético e poético de mundo. Ela me disse: Você precisa escrever. Tem um escritor reprimido em você e precisa escrever. Foi isso ou algo do tipo, mas ela (que infelizmente já não está entre os vivos) foi o gatilho para eu assumir que tinha um escritor aprisionado em minha alma. Depois daí, comecei a escrever minha primeira obra e não parei mais.

SI&F: Sobre o que você mais gosta de escrever?
M. M.: Gosto da literatura fantástica. Quando digo fantástica incluo algo do tipo A luneta mágica de Joaquim Macedo, até O senhor dos anéis, ou literatura Z. Tudo o que não é biográfico, técnico/profissional, e que seja fictício para além de um romance do dia-a-dia, é para mim fantasia. Por isso me dedico a produção de textos ao estilo RPG, como a Trilogia de Dragonlance e a do Vale do Vento gélido, mas de uma maneira mais pungente, mais densa e brutal, sem maniqueísmos, juízos de valor forçado (o que A. Huxley chamaria de Vulgaridade na literatura) ou discurso em prol de interesses alheios. Penso como Ken Follet, que acha que o leitor não está interessado na opinião dele. Eu acho que o leitor está interessado na opinião dos personagens, pelo menos os que estão livres do que Dr. Jung chamaria de estado de consciência em “Participação mística”, em que a pessoa não diferencia suas sensações e vivências das dos personagens e mistura sua repulsa por um deles ao autor.  Seria uma maneira de mostrar que os heróis não são tão bons nem os vilões tão malignos. Todos são relativos e isso depende como cada leitor vê os personagens. Como um leitor já me dissera: “Sua obra é “dark””. Leia universos da TSR como Darksun ou Ravenloft e vai perceber que a visão de mundo de meus personagens está sempre no limiar de entrar no ritmo do universo desses dois mundos, sem, porém, jamais transcender a ideia de heroísmo de universos ao estilo da Terra média(Tolkien), Dragonlance(TSR), Forgotten Realms(TSR) ou Grayhawk (TSR) com pontas de Bernard Cornwell e um pouco de história da humanidade mesmo.

SI&F: Você já tem algum trabalho publicado? Fale um pouco sobre eles.
M. M.: Tenho um conto publicado, Cheiro de capim cortado. Tenho também o volume um de uma trilogia que escrevi, meus primeiros 3 livros. A trilogia é A auriflama do caos, e publiquei o volume um, mas por questões de praticidade estou preparando uma nova edição revista e reduzida dos 3 livros em um só. Isso porque sou autopublicado e pretendo fazer logo os três de vez, em vez de lançar um a cada dois anos, enquanto angario recursos financeiros para tal. Nesse caso, estou em fase de preparação para lançar a trilogia em formato 3x1 enquanto escrevo uma outra história que penso que será uma pentalogia.

SI&F: Fale um pouco sobre o seu conto para a antologia Contos de Taverna. Como surgiu a ideia?
M. M.: Osbarg foi um conto inspirado em uma pessoa real. Não digo quem, mas depois de alguns anos convivendo com essa pessoa as coisas que ela prometia que ia fazer com outras pessoas me deu a ideia de uma personagem. Nós dois ríamos muito dessas coisas, e sempre tive a vontade de criar uma personagem inspirada nessas ideações dessa pessoa. Daí surgiu Osbarg que é o motivo central do conto. Enfim realizei o que prometi a essa pessoa de forma a imortalizar os momentos em que rimos juntos do que ela ideacionava.

SI&F: Como é seu processo de escrita?
M. M.: Caótico. E acho esse o meu melhor. Por que? Porque os conteúdos que todos nós trabalhamos a maior parte do tempo vêm do inconsciente, assim acredito calcado na teoria Junguiana. O inconsciente tem seu próprio ritmo e forma de trabalho e eu gosto de respeitar isso.Tem um pessoal com falácias sobre escrever todo dia, ter hora, minuto e segundo para a escrita. Técnicas, métodos, tipos de diálogo etc. Isso pode funcionar bem com elas, mas acho que elas não representam o todo. Não me representam. Aprendi na Psicologia Analítica Junguiana é que o processo criativo segue o fluxo do inconsciente, que não se molda aos caprichos do consciente, ou do Complexo do Ego, por isso não tem hora, minuto ou segundo para funcionar (pelo menos comigo). Às vezes estou no banho e tenho uma ideia de cena, ou estou ouvindo uma música ou ouvindo algo que alguém fala, ou observando apenas a forma como uma pessoa anda na rua. E a ideia vem. Quando a torrente de inspirações, imagens arquetípicas ou individuais, conteúdos, palavras, sensações irrompem na minha consciência, atiro-me ao papel e anoto a ideia. Mais tarde, ou no outro dia (pois gosto de deixar a ideia amadurecer um pouco), sento e a uso numa cena, diálogo ou gesto de personagem. Depois incluo em algum momento da história. Essa coisa de técnica, métodos etc... acho muito legal, ajuda bastante, apoia quem não tem noção de por onde começar nem o que fazer ou como fazer. Mas não acho que seja indispensável. É um aprimoramento, mas não indispensável. Acho que a mestria na escrita vem com a prática, a observação e a leitura. Cada um terá seu próprio processo de produção, sua forma mais confortável de fazer. Não creio que A ou B me dizendo que devo escrever todo dia venham a acrescentar muito no meu processo, pois se for sentar para escrever qualquer coisa é melhor ir fazer um relatório de trabalho ou digitar um texto. Ou ler, ou jogar um LOL, ou ver um filme. Não me forço a escrever 3 ou 4 páginas por dia para acabar um livro em 2 meses. Não vivo da escrita, sou funcionário público, e grande parte de meus dias é atendendo pacientes (animais ou humanos), andando de ônibus por Salvador e chegando em casa cansado e emocionalmente desgastado.  O resto é para escrita, família, joalheria, cachorro,amigos e o que vier.
Quando paro para pensar em autores como Machado de Assis, Charles Dikens, Joaquim Manuel de Macedo, H.P Lovecraft, dentre outros, e percebo que eles não frequentaram escolas de escrita, me questiono sobre a real importância desses cursos e desses enquadramentos de que se fala muito outro dia. Se eu faria um desses? Sim, faria se tivesse dinheiro, mas não acho que sejam vitais para produzir. Servem para melhorar ou para o primeiro chute na bola. No meu caso não tive mestres (embora eu haja me esforçado para um professor me ajudar, mas ele só se esquivou), nem mesmo leitores críticos que me ajudassem (nem mesmo pagando) até esse anos de 2016. Aprendi na tentativa, golpe e erro. Dói muito, inclusive no bolso, mas aprendi e ganhei uma experiência que acho preciosa.
Por fim, creio que se você trabalha bem a coerência de seus textos, tem um bom leitor crítico, um bom leitor beta e tem um bom profissional de revisão e copidesque, já tem quase tudo que um autor precisa de externo. O curso é complemento ou um start. O resto é com você, seu inconsciente e a forma como você se sente melhor para jogar no papel aquilo que o incomoda, que chama a sua atenção ou de que você quer apenas falar, sem juízos de valor.

SI&F: Você tem algum projeto para os próximos meses, além de Contos de Taverna?
M. M.: Estou na construção de uma possível pentalogia. Já terminei o primeiro volume e estou em mais da metade do segundo. Tudo vai depender do ritmo de como construo a história.
Atualmente participo do projeto Guerreiros folclóricos- GF como coautor junto com o idealizador do projeto Joe Santos. Estou participando junto com a Unique entretenimento digital da formulação do roteiro do jogo. Assessorados pelo historiador Daniel Sena, que também me ajudou na construção de minha trilogia A Auriflama do caos, escrevemos já o primeiro volume da trilogia do GF e estamos em busca de publicá-la enquanto preparamos já o volume 2.
Fui convidado a participar da construção de um romance de um jogo Behemoth pela RankS, e estou ansioso para começar a escrever. Além disso estou produzindo nas horas vagas um livro de contos um pouco fora do fantástico, mas com o pezinho lá ainda. Faltam alguns contos para terminá-lo, e esse pretendo doar em prol de alguma causa, talvez para pacientes que sofram de Esclerose Lateral Amiotrófica – ELA, com quem trabalho, ou crianças com Duchenne. Ainda não decidi. Se vier a valer de alguma coisa espero que os frutos beneficiem uma dessas duas populações de doentes.

SI&F: Por fim, que dica daria aos demais escritores? O que você aprendeu com sua jornada até o momento?
M. M.: Por mais que vocês leiam seu texto, releiam de novo. Sempre que puderem o façam. Vocês estarão viciados nos erros, então paguem um revisor para revisão e copidesque profissionais. Não vá por amadores, pois pode ter muitos problemas desagradáveis com a falta de profissionalismo deles. Falo isso por experiência própria. Além disso, se querem investir em publicar seu livro sem procurar editoras comerciais, sugiro que investiguem muito bem aquela que o aceitar. Principalmente se for rápido ou parecer fácil. Procurem pela procedência do CNPJ, vão ao Reclame aqui, busquem outras opiniões. Investiguem outros trabalhos publicados delas e, mesmo havendo livros no mercado, ainda assim poderão tomar golpe. Falo isso por experiência própria. Procurem leitores beta, confie neles, mas se não são profissionais não esquentem muito com as opiniões. Leve-as a sério, mas saibam que aopinião não é técnica e sim calcada nas impressões pessoais dela. Nesse caso, busquem ouvir uma opinião profissional em contrapartida. Há pessoas que misturam suas sensações próprias com as que os personagens vivem ou não se diferenciam dos personagens e vivem ao ponto da indignação o que suas criações vivem. Depois imputam-lhe má intenção, discursos eivados pelos diversos “ismos” de nosso mundo e entram num estado de fúria contra o autor como se ele pensasse, defendesse ideiais ou agisse como seus personagens. Como já me referi antes, são pessoas que podem estar na primeira fase da consciência (a Participação mística) com relação ao seu texto ou podem estar vivendo dentro do espírito da coletividade moderna. Isso não é incomum no cinema e televisão, e também não o é na literatura. Má interpretação de seus textos ocorrerá, por isso repito mais uma vez através da lição que aprendi duramente: Procurem sempre profissionais. Sempre. Não pensem em amizades ou favores ao fazerem isso, nem mesmo em poupar. Hoje estou com uma profissional na revisão e copidesque de minha trilogia e digo que estou muito satisfeito por ver uma pessoa técnica, madura e preparada a opinar sobre meu texto sem o juízo de valor pessoal dela interferir diretamente na nossa relação. Isso é valioso e vale o preço que pagará, tenham certeza. Se há mais? Sim, mas vocês vão ter que descobrir por si mesmos, ou então façam um curso. ;)

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