10 de setembro de 2016

Precisamos falar sobre suicídio: como abordá-lo em seu livro

Setembro Amarelo é o mês da campanha de prevenção ao suicídio, mas hoje, dia 10, é o Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio — e, por isso, o dia escolhido para a blogagem coletiva dos Blogueiros Literários Unidos.

No Brasil, a cada dia, 25 pessoas tiram a própria vida1. E, de acordo com a OMS, 90% dos suicídios poderiam ter sido prevenidos. E uma das maneiras de prevenir o suicídio é educar e esclarecer, por isso, é necessário deixar os tabus de lado e falar sobre o assunto.

E, se você é escritor, pode até ser que tenha interesse em explorar isso em suas histórias. Por isso, pesquisei e reuni algumas dicas que podem ser importantes para ajudá-lo a abordar o assunto de forma verossímil e responsável.


Antes de irmos às dicas, porém, eu gostaria de frisar que este post é voltado a escritores que desejam abordar o suicídio em seus livros. Ele DE FORMA ALGUMA substitui tratamento médico ou psiquiátrico, portanto, se você está passando pelo problema ou conhece alguém que passa, procure ajuda profissional. O CVV – Centro de Valorização da Vida permite que você procure ajuda de forma anônima e gratuita, além de ter diversas informações a respeito do suicídio e sua prevenção.

Agora, às dicas para os escritores:

1. Pesquise


Minha intenção com esse post não é fazer um guia definitivo e nem reunir tudo o que um escritor precisa saber sobre o suicídio, e sim uma lista com algumas dicas gerais para que você tenha por onde começar. Você que é escritor provavelmente sabe disso, mas vale frisar: se você quer abordar o suicídio em suas histórias, pesquise muito, de forma a evitar a disseminação de mitos, preconceitos e estereótipos. E também para caracterizar seu personagem de forma verossímil.

2. Tome cuidado com os mitos


Existem muitos mitos ao redor da ideia de suicídio, muitos deles responsáveis por gerar tabus e preconceitos em torno da ideia e das pessoas que pensam em praticar ou praticaram. Assim, tenha o cuidado de não disseminar esses mitos naquilo que você escreve. Conheça alguns dos mitos neste post2 e neste aqui3.

Além disso, não se esqueça de que falar sobre o suicídio não incentiva a prática; muito pelo contrário: falar da forma correta e sem julgamentos pode estimular as pessoas que passam pelo problema a se informarem e buscar ajuda. Dessa forma, se você quer abordar isso em seu livro e está disposto a pesquisar sobre o assunto e abordá-lo de forma respeitosa e responsável, vá em frente.

3. Não use a narrativa para condenar o personagem


Suicídio é algo sério, que pode ser prevenido, e é importante demonstrar apoio e não preconceito, pois muitas vezes é a falta de confiança nas pessoas ao redor que pode levar alguém ao suicídio. Se possível, mostre a mensagem de que é possível superar, sair dessa fase, não que é uma fraqueza ou forma de chamar a atenção.

Mais uma vez, pesquise bastante, procure relatos pessoais. Estigmas e preconceitos sofridos por pessoas que pretendem se suicidar ou sobreviveram a uma tentativa de suicídio podem sim ser abordados, mas tenha o cuidado de não condenar seu personagem através da narrativa. Ao mesmo tempo em que o personagem tem amigos, familiares e conhecidos que o estigmatizam, por que não pode ter amigos ou familiares (ou mesmo profissionais da área da saúde) que o apoiem de forma positiva?

4. Se o personagem tiver algum transtorno psiquiátrico (como depressão ou ansiedade), pesquise sobre o assunto


Nem sempre o suicídio é estimulado por alguma desordem mental2, mas se for o caso do seu personagem, pesquise sobre o assunto, a fim de caracterizar seu personagem e mostrar sua doença (e seu tratamento) da forma correta. Lembre-se de que a doença é um estado e seu personagem e a vida dele não se resumem a isso. Então tente lhe dar um papel maior dentro da história do que ser a pessoa que tem depressão ou a pessoa que quer se suicidar. Ele pode, por exemplo, ser o jovem que vai ajudar seu protagonista a encontrar a arma que destruirá o vilão enquanto tenta lidar com seus problemas de depressão e pensamentos envolvendo suicídio.

5. Procure relatos pessoais


Cada pessoa experimenta a vida e o mundo de uma forma, e o mesmo vale para os seus personagens. Ler relatos pessoais (não é muito difícil encontrá-los pela internet; esse post, por exemplo, tem links para diversos posts com relatos, não só sobre suicídio) pode inspirá-lo e lhe dar uma ideia de como o seu personagem irá encarar a situação (lembre-se de adequar esse modo de ver com a personalidade de seu personagem, de forma a ser coerente; fichas para personagens podem ajudá-lo). Lembre-se, também, de que a pesquisa por relatos pessoais não substitui a pesquisa formal sobre o assunto, são mais para ajudá-lo a entender como o problema funciona no dia-a-dia e se colocar no lugar dessas pessoas.

E tenha cuidado caso você vá pedir por relatos. Muitas pessoas não querem ou não se sentem confortáveis falando sobre o assunto, e você precisa respeitar essa decisão. Além disso, mesmo que a pessoa aceite, você deve ser cuidadoso com o que diz e como reage (não julgue). Se você acha que não conseguiria lidar com as pessoas da forma correta, procurem relatos que já estão na internet (ou em outros meios).

6. Se for um livro de fantasia ou ficção científica, pense também no worldbuilding


Se você escreve fantasia ou ficção científica, é bem provável que seu universo tenha várias religiões, ideologias e sociedades diferentes. Então, além de pensar no seu personagem e naqueles ao seu redor, pense em como cada um dos grupos existentes no seu mundo interpreta o suicídio. O estigma não vem somente de pessoas próximas ou conhecidas, mas também da ideia que o personagem tem sobre o assunto. Como ele se sentiria, por exemplo, se um estranho ficasse sabendo? Como ele esperaria que esse estranho reagisse, de acordo com o que ele sabe da sociedade onde vive?

Além disso, pense nos fatores sociais que poderiam levar alguém ao suicídio. Toda sociedade pressiona as pessoas de alguma forma, especialmente se elas não atendem às expectativas. Assim, pode ser que exista algum grupo mais propenso a cometer suicídio que outros. No nosso mundo, por exemplo, os homens se matam três vezes mais que as mulheres, enquanto que as tentativas de suicídio são três vezes mais frequentes entre mulheres, e uma das causas para isso podem ser as diferentes expectativas que a nossa sociedade atribui a cada gênero1,3. Então procure pensar na dinâmica de cada grupo social de sua história e nas exigências e expectativas que recaem sobre cada um deles.

7. Tenha cuidado ao abordar a morte de seu personagem


Caso você opte por não dar um final feliz ao seu personagem, tenha cuidado ao abordar sua morte. Primeiro, pense no seu público alvo: pode ser que descrever o ato ou a forma como a pessoa foi encontrada não seja interessante para o seu livro. Mostrar outros personagens falando sobre o que aconteceu pode ser uma solução (nesse caso, lembre-se de contrapor os comentários preconceituosos de um ou mais personagens por meio da narrativa ou de personagens que venham a contestá-lo).

Além disso, talvez seja interessante mostrar que a morte poderia ter sido evitada. Talvez seu personagem não tivesse conhecimento sobre profissionais e tratamentos que pudessem ajudá-lo, ou não tivesse acesso a eles, por exemplo. Procure mostrar uma mensagem de esperança, apesar da morte dele, pois pode ser que o seu leitor esteja passando por este problema — e imagine qual seria o impacto de um livro cuja mensagem é que o suicídio é a única solução.

8. Tenha cuidado ao abordar o tratamento de seu personagem


Caso seu personagem sobreviva à tentativa ou desista de tentar, procure retratar o tratamento de forma realista, verossímil e sem julgamentos. Pesquise, leia, se possível converse com profissionais, procure relatos pessoais na internet.

9. O suicídio não é praticado para chamar a atenção


E também não é uma moda, nem um ato de egoísmo. São vários os fatores que podem motivar alguém a querer tirar a própria vida, e eles podem ser muito complexos, podendo envolver transtornos psiquiátricos, outras doenças não relacionadas à saúde mental (como doenças muito debilitantes e que causem muita dor, mas não se limitando a isso), traumas de infância ou adolescência, entre várias outras coisas3. Muitas vezes, pode até ser que a pessoa não queira tirar sua vida realmente, talvez ela apenas não consiga enxergar outra solução para a situação em que se encontra — e por isso é importante falar sobre o suicídio, esclarecer o assunto e oferecer formas de ajudar1.

Também evite retratar a pessoa como se fosse fraca ou louca por não enxergar outra solução. Como já enfatizei, cada pessoa tem suas particularidades, cada um é mais ou menos hábil em uma coisa, e portanto cada um encara a vida e seus problemas à sua maneira. Assim, não custa lembrar que o aquilo que pode parecer nada para você para outra pessoa talvez seja um problema enorme — e vice-versa. E não cabe a você e nem a nenhum de nós fazer julgamentos.

E lembre-se de que uma pessoa não necessariamente vai se suicidar se tiver um ou mais fatores de risco, como também não estará 100% protegida caso não os tenha3. É sempre importante ter isso em mente ao caracterizar seus personagens, a fim de não propagar preconceitos e estereótipos a respeito não só de quem se suicidou ou tem pensamentos suicidas como também a respeito de pessoas que se enquadram nesses fatores de risco.

10. O suicídio como uma prática cultural ou religiosa


Muitos escritores de fantasia ou ficção científica podem acabar criando culturas, religiões, sociedades secretas ou outro tipo de grupo que tenha algum ideal em torno do suicídio ou o glorifique de alguma forma (já li ou ouvi falar de histórias assim). De jeito nenhum eu acredito que abordar esse tipo de coisa em uma história deva ser proibido, entretanto, isso cria um dilema (ao menos a meu ver). Abordar o suicídio como se fosse algo desejável talvez não seja uma boa ideia (o suicídio é um problema de saúde pública, afinal). Ao mesmo tempo, deve-se ter cuidado de não condenar uma cultura, religião ou grupo inteiro, mesmo que este seja fictício — o que se enquadraria em preconceito.

Então se você é escritor e tem interesse de abordar esse tema, além de pesquisar, pense bastante no assunto e pondere sobre como escrever a respeito da melhor forma possível, tomando o cuidado de condenar apenas um aspecto desse grupo ou cultura — e condenar o estímulo ao ato que essas pessoas praticam, e não o personagem influenciado.

Bônus: Recomendação de conto


Infelizmente ainda não li nenhum livro que trate do assunto, pelo menos não de forma realista ou como o foco da narrativa. Mas gostaria de recomendar para vocês um conto: O dia em que decidi morrer, da Francine Porfírio, que convida o leitor a mergulhar na mente de uma pessoa que alimenta a ideia do suicídio. Ele está disponível na Amazon e no Wattpad, e se você ler o conto, não deixe de compartilhar ou dar um feedback, porque uma das intenções da autora é justamente dar visibilidade ao assunto e mostrar o quanto é importante falar sobre isso, esclarecer mitos e verdades e indicar pessoas ou instituições que possam oferecer ajuda.


***


Espero que essas dicas ajudem e, se você tiver algo a acrescentar, fique à vontade. Além disso, também não sou especialista no assunto, então se você encontrou algum erro nessa matéria ou sentiu ofendido ou desconfortável com algo que escrevi, não tenha medo de me avisar.

Referências e outros sites que podem te ajudar:

Esse post faz parte da iniciativa Blogueiros Literários Unidos (BLU); veja também os posts dos parceiros: The Nerd Bubble | DNA Literário | Entre Dimensões.

7 comentários :

  1. Dicas muito pertinentes, Laís.
    Eu acrescentaria, por conta da minha experiência pessoal: quantos aos mitos, especialmente o da covardia, e a questão da condenação. Eu (não posso falar sobre outras pessoas) me sentia culpada em pensar sobre me matar e deixar meus pais sozinhos com a situação da minha vó, deixar minha mãe sem ninguém para apoiá-la, me sentia como se eu estivesse sendo covarde. Ninguém me falava isso, mas era como eu me sentia. Às vezes não são os outros que condenam, mas a própria pessoa que se condena, e seria bom o escritor manter isso em mente: ele não precisa condenar através da narrativa, nem isso é bom, mas às vezes é a pessoa que se condena; quanto ao pedir ajuda, eu sabia que podia ter pedido ajuda aos meus pais, mas eu também não queria sobrecarregá-los com a minha situação quando já tinham de lidar com a minha vó. Só Deus pra saber o que se passa em nossas cabeças nessas horas que nos impede de pedir ajuda :/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não tinha pensado na condenação que o próprio personagem poderia (talvez) colocar sobre si; muito obrigada por complementar, Gabrielle - e, mais uma vez, desejo força para você enfrentar a situação.

      Abraço!

      Excluir
  2. Acredito que a falta de informação sobre assuntos que são tidos como "tabu" a pior barreira para se vencer essas coisas... Amei sua postagem!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bom saber que ela foi informativa para você! E obrigada pela visita!

      Excluir
  3. Adorei as dicas, Laís! Acho todas bem pertinentes e podem ajudar muito quem planeja escrever sobre o assunto com responsabilidade!
    Ótimo post! Parabéns!

    Bjs da Cami :3

    ResponderExcluir
  4. Que post maravilhoso, Laís!
    Eu vi muitas coisas que você falou em minha aula de Saúde Mental, minha professora fala muito em individualidade do homem, que não podemos NUNCA pegar um exemplo para aplicar como regra. Cada pessoa tem um jeito de lidar com os problemas, cada pessoa tem seu limite e não podemos dizer "ah, eu sofro mais que ele e não penso em me matar". Isso também é algo muito complicado, a gente faz isso em várias ocasiões e acho que essa mentalidade deveria ser mudada urgentemente!

    Eu realmente adorei as dicas, espero que ajude os escritores que forem tratar do assunto futuramente :D

    Abraços!!

    ResponderExcluir

Sinta-se à vontade para deixar opiniões, dúvidas e sugestões. Se tiver um blog, deixe o link ao final de seu comentário para que eu possa visitá-lo.

Ao comentar, tenha bom senso (ou leia isto), de modo a evitar que seu comentário não seja publicado.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...