23 de maio de 2015

Escrevendo Fantasia | Worldbuilding - Parte 2

Na edição anterior da coluna destaquei alguns pontos que julgava importante explorar durante a criação de um mundo de fantasia. Neste post, darei algumas dicas sobre como determinar cada um dos aspectos de seu mundo. São dicas que funcionam para mim ou que pretendo tentar colocar em prática, e, embora cada escritor tenha seu método, pode ser que funcionem também para outras pessoas.

Mapas

A primeira coisa que me vem à cabeça quando tenho uma ideia é a história. É comum eu abrir o Word para anotar uma ideia repentina e, enquanto faço isso, mais e mais ideias aparecem, e quando vejo tenho uma página inteira, às vezes mais, descrevendo a história do início ao fim. E, caso a história se passe em um mundo que eu ainda não tenha criado, geralmente tenho em mente a localização e formato aproximado dos países, por isso faço um esboço no paint.

Esboço do mapa de um projeto que estou desenvolvendo, e sobre o qual falarei em breve.

Eu não me preocupo com a versão que virá ao final do livro quando ele for publicado; é só um rascunho mesmo, que eu uso como guia durante a escrita da história e faço acréscimos e mudanças se tiver novas ideias ou achar necessário. Além disso, ele me ajuda durante a construção do mundo: enquanto desenho os países, já começo a pensar em como seus contornos se formaram, como as cidades surgiram, como são as relações entre cada um. Ter um mapa me ajuda a definir como será o clima em cada local, quais as distâncias entre cada cidade.

E, ainda sobre as distâncias, sugiro que vocês leiam este artigo que o autor M. A Iora escreveu para o blog Me Livrando: Noções de Tempo e Espaço — ou “Física Aplicada aos Romances de Fantasia”, onde ele fala sobre a importância de se manter a coerência nos deslocamentos de personagens.

Povoando o seu mundo

Com o mapa pronto, fica mais fácil decidir onde vive cada uma das raças que sua história irá abordar, sejam humanos, elfos, anões ou criaturas de sua invenção. E então basta lhes dar características: modo de vida, cultura, poderes, sistema de governo, tecnologia que usam. E não se esqueça de que, assim como os humanos, outros seres também apresentam diversidade cultural, mesmo se pertencentes a uma mesma espécie.

Tão importante quanto decidir quem serão esses seres (se você trabalhar com mais de um), é definir como será a relação com os demais (ou entre as diferentes culturas formadas por aqueles de mesma espécie). Faça perguntas a si mesmo: o que pode levar duas raças ou nações a se odiarem, ou a se ajudarem? O que os elfos, apegados à natureza, iriam pensar de sua exploração por parte dos humanos em nome do progresso da tecnologia?

Uma vez definidas todas essas características, eu sugiro que você faça fichas. Detalhe-as com todas as informações que você julgar importantes, para que não se esqueça delas ao longo da história e também para que as complemente, caso tenha alguma nova ideia enquanto escreve. Desse modo, você evita incoerências, ou ao menos facilita o seu trabalho na hora da revisão.

Aqui vou recomendar dois artigos: este, onde Chimeriane faz uma análise sobre os elfos de O Ciclo da Herança (Christopher Paolini) e este, onde o escritor José Roberto Vieira fala sobre como trabalhou os elfos de Nordara, o mundo de O Baronato de Shoah.

Tecnologia

A maioria dos livros de fantasia que leio se passam em um período muito semelhante à nossa era medieval, e se não for, pelo menos antes da época das armas de fogo, porém, isso obviamente não é uma regra. O Segredo de Todos os Mundos, por exemplo, se passa em um mundo com tecnologia dos anos 2000, e eu estou trabalhando em outra história que se passará em uma época semelhante à do século XIX.

Independente da era (ou das eras) que serão tratadas em seu livro, é importante definir a tecnologia usada em seu mundo e ser coerente com ela. Tendo isso decidido, dê profundidade ao tema, especialmente se for de importância central no seu enredo. Que tecnologias são usadas por cada povo/espécie? Como isso interfere na dinâmica entre eles? Qual a disponibilidade de recursos? O quão interessados eles estão em fazer sua tecnologia progredir? Quais os seus objetivos com o uso dessa tecnologia? Questões como essa podem ajudá-lo a dar profundidade ao tema.

História

A história é, para mim, a parte mais difícil. Myhorr foi um mundo que se expandiu e aos poucos ganhou profundidade enquanto eu escrevia e reescrevia os livros de O Segredo de Todos os Mundos ao longo dos anos. Algumas dessas revisões, aliás, se deram pois eu tive mais ideias para esse mundo. 

Para os demais projetos, entretanto, eu quero um método mais eficiente, por isso optei por definir os aspectos gerais do mundo para depois pensar em como ele se tornou aquilo que é. Alguns desses aspectos terão de ser redefinidos, pois a história, como mencionei no artigo anterior da série, inevitavelmente influencia muitas coisas. 

Também tenho noção de que terei muitas ideias referentes a esse aspecto durante a escrita, e que durante a revisão terei de alterar algumas coisas para manter a coerência — e aqui destaco, mais uma vez, a importância de manter um arquivo com todas as ideias organizadas. Idealizar um calendário, definindo dias, meses e anos também é importante, pois me ajuda a montar a cronologia.

Religiões

Tanto em Myhorr quanto em outros mundos de minha criação, gosto de relacionar as religiões à história, fazendo com que uma molde a outra: em Myhorr algumas religiões motivaram guerras, e alguns de seus preceitos acabaram modificados para servir aos propósitos de um determinado grupo.

Não tenho muita dificuldade para inventar religiões: geralmente idealizo uma ou mais entidades, ligo-as a elementos da natureza (morte, vida, água, terra) ou do cotidiano (guerra, conhecimento) e idealizo um código de moral (aquilo que é considerado certo pelos seguidores da religião). Às vezes também determino como se dão os cultos e a arquitetura geral dos templos.

Tendo isso em mãos, procuro pensar em como essa religião influenciará a história e o dia-a-dia das pessoas, caso seja suficientemente popular para ter tanta influência (às vezes também idealizo religiões secretas e obscuras).

Aparência

A aparência de seu mundo inclui a geografia, a arquitetura e a fisionomia das pessoas, sendo que as duas últimas se relacionam com a cultura e a história.

Se um lugar for conquistado por diversas nações com o passar dos tempos, provavelmente apresentará uma mistura de diferentes arquiteturas, como é o exemplo de Dyaton em meus livros, onde é possível encontrar três tipos de arquitetura, além de construções modernas. A arquitetura de cada nação é baseada em sua cultura, normalmente expressando algo em que acreditam (Matrixion, outra nação de Myhorr, apresenta torres altas e austeras, ao mesmo tempo práticas e imponentes, pois no passado eles construíram um império e já foram um povo muito bélico e disciplinado, mas ao mesmo tempo orgulhoso).

As vestimentas, além de outros aspectos que compõem a fisionomia de uma pessoa, estarão ligadas às crenças e à cultura, e também ao clima (quanto mais frio, mais roupa) e à época.

Fisionomia geral e vestimentas das diferentes nações de Myhorr

A geografia acabo deixando um pouco de lado em meus projetos, já que, sendo que a maioria se passa em uma era moderna, o relevo dificilmente acaba sendo um impeditivo no deslocamento dos personagens. Assim, me limito a definir as principais florestas e dar nome aos rios que atravessam cidades importantes, além de definir os contornos dos continentes e países.

Dia-a-dia

Essa parte pode parecer detalhista, mas muitos dos aspectos citados nos tópicos anteriores podem influenciar, direta ou indiretamente, a rotina, as crenças e as motivações dos personagens, até mesmo gerando conflitos. Desse modo, também gosto de pensar em como tudo isso afetará meus personagens nas pequenas coisas.

Porém, o que acho mais interessante destacar aqui são algumas coisas que parecem tão comuns para nós que sequer imaginamos que poderiam ter sido feitas de maneira diferente nos tempos antigos.


Em pesquisas, geralmente damos atenção a coisas maiores, como organização social, guerras e vestimentas, sem prestar atenção às pequenas coisas que mexiam diretamente com o cotidiano, como o padrão de sono, a contagem de horas e minutos (confira este artigo), a criação dos finais de semana. Logicamente que, em um universo de fantasia, o escritor tem mais liberdade, mas são detalhes como estes que dão verossimilhança à sua história, ou ao menos a tornam mais interessante.

***

Vocês devem ter percebido que deixei de fora um dos aspectos mais importantes de um universo de fantasia: a magia. Porém, tenho tanto a dizer sobre ela que precisarei de um artigo inteiro, que será publicado em breve.

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