29 de abril de 2015

Escrevendo Fantasia | Worldbuilding - Parte 1

Um livro de fantasia pode ser ambientado tanto na Terra como em um mundo fictício, de criação do autor. Independentemente da escolha, há algumas coisas que precisam ser trabalhadas, tanto em um quanto em outro.



Escolhendo uma ambientação existente na Terra, você precisará inserir os elementos fantásticos de maneira que eles pareçam plausíveis em nosso mundo. Ao criar um novo mundo, é necessário pensar em todos os seus detalhes, desde as criaturas que os habitam até questões envolvendo política e religião, de modo que ele realmente convença como um mundo que poderia existir e seja o mais interessante possível para o leitor.

Neste post irei ressaltar alguns pontos que acho importantes na criação de um mundo totalmente novo, e mais para a frente falarei sobre histórias que se passam na Terra.

Aspectos gerais

Em primeiro lugar, defina os aspectos gerais de seu mundo. Dê nome ao planeta, aos continentes, aos países, mares, cidades, florestas, etc. Desenhe um mapa, colocando nele os principais locais que serão retratados em sua história e dando forma aos continentes e países. Não se preocupe com a versão que sairá em seu livro quando este for publicado; ele apenas servirá como um guia para que você não se perca durante a criação de seu mundo e posteriormente durante a escrita do livro.

Também é importante definir a época em que a história se passa. A maioria dos livros imita a nossa época medieval, mas é possível que seu livro se passe em uma época semelhante ao nosso século XIX, pode ser que imite a época atual, pode ser futurista. Isso o ajudará a definir os demais aspectos de seu mundo, como por exemplo a tecnologia e a maneira como ela é usada.

Defina também a geografia e o clima, pois isto muitas vezes influi na cultura e nas relações entre os habitantes de seu mundo. Por exemplo, se sua história se passa em um mundo com tecnologia rudimentar e há uma cadeia de montanhas separando dois países, eles seriam isolados entre si e haveria pouquíssima comunicação entre ambos, a menos que exista um meio mágico de transpor esse obstáculo.

Mapa de Myhorr, um dos mundos criados por mim.

Habitantes

Que criaturas vão habitar seu mundo? Humanos, elfos? Uma criatura de sua própria criação? É importante definir quem eles são, como se relacionam com o mundo, como as espécies (caso haja mais de uma) se relacionam umas com as outras, que tipo de poderes cada uma possui. Fisionomias também são importantes (geralmente, a primeira coisa em que se repara em uma pessoa é na sua aparência). Eles também terão uma cultura: modo de vestir, folclore, superstições, crenças, etc.

Fisionomias das pessoas das principais localidades em Myhorr, o mundo onde minha história se passa.

E, depois de definir isso, dê profundidade a essas características. As pessoas podem ser discriminadas pelo que vestem, pela cor dos olhos, por suas crenças, pelos poderes que possuem (ou por não possuírem poderes), por pertencerem a uma determinada espécie. Ademais, diferentes culturas podem entrar em choque entre si, e os menores detalhes podem causar conflitos.

Outro ponto que vale ressaltar é que, assim como os humanos, seres pertencentes a uma mesma espécie não necessariamente concordarão com uma única maneira de se viver, de forma que também apresentarão diversidade cultural. Normalmente vemos livros de fantasia retratando essas espécies de maneira uniforme, como se todos os seus elementos concordassem com as mesmas ideias, mas isso obviamente não é uma regra. Entretanto, é claro que isso é uma escolha do autor.

Religiões

Um mundo onde não existem religiões pareceria muito inverossímil, a menos que o autor consiga encontrar uma boa razão para isso.


A religião pode ser abordada de duas maneiras na fantasia: ela pode ser verdadeira (ou seja, os deuses citados por ela realmente existem em seu mundo) ou apenas uma interpretação (os deuses não existem realmente, mas representam diferentes esferas do mundo, como natureza, morte, vida, etc.). Obviamente que os seguidores dessa religião acreditam na existência desses deuses.

Depois de definir quem são esses deuses — ou deus —, seus poderes, intenções, história, é necessário que você defina o papel que a religião terá dentro da sociedade, especialmente se ela for muito presente. Pense em como ela influirá na moral, na rotina das pessoas, como será sua relação com outras religiões. Muitas vezes a religião é usada como motivação para conflitos, apesar de a religião em si não ser um problema, e sim a interpretação que seus seguidores fazem dela.

Organização da sociedade

Outro ponto importante é a organização da sociedade. Existem classes sociais? Existe preconceito? Este, se presente, é dirigido a quem e por quê? Lembre-se de dar uma boa explicação para que determinado grupo seja discriminado, de forma que isso faça sentido dentro de sua história e não pareça algo simplesmente jogado a esmo.

Como exemplo, posso citar um dos países do mundo que criei para O Segredo de Todos os Mundos: Matrixion aos poucos dominou todo o continente, originando um império, e o manteve durante quase mil anos até que este começasse a ruir. Nessa época, vários reinos começaram a se insurgir, dentre eles aquele que no futuro se tornaria Dyaton. As guerras trouxeram muito ressentimento, o que gerou uma rixa histórica. Isso levou os dyatonianos (aqueles que residem em Dyaton) a serem muito xenofóbicos, mas o povo que eles mais odeiam é o matrixiano, por isso acabam por discriminar pessoas com fisionomia tipicamente matrixiana.

Ademais, seu mundo terá uma organização política. Você pode se basear em uma que exista ou tenha existido na Terra (se for fazer isso, recomendo a leitura desse artigo), ou pode criar uma nova. Abaixo listo algumas questões que podem ajudá-lo a definir este ponto:

  • Quem governa? Defina uma hierarquia mais ou menos detalhada a depender das necessidades de sua história.
  • Como é esse governo? Existe tirania? Se existe, isso é percebido pelas pessoas? Isso nem sempre é uma coisa óbvia: as pessoas podem ser sutilmente influenciadas para acreditarem em coisas que nem sempre são verdadeiras. Existem coisas que são repetidas tantas vezes que acabamos internalizando e aceitamos naturalmente, sem nem mesmo questionar. Podemos até mesmo ser levados a praticar atos equivocados por acreditar que esta é a coisa certa. (Esse é até mesmo um tema muito interessante para ser explorado: abale as crenças e convicções de seu personagem e veja no que vai dar).
  • Como é a relação entre as pessoas e o governo? Isso obviamente dependerá muito do tipo de governo que existe. Opressão descarada poderá suscitar o ódio, enquanto que um controle mais sutil pode até mesmo levar as pessoas a amar esse governo, por mais que este lhes faça mal. Além disso, há pessoas que temem mudanças, e muitas vezes acabam lutando contra um tirano apenas para se descobrirem colocando outro no lugar.
  • Como são as relações entre os diferentes locais retratados em sua história? Existem guerras? A paz é precária? São diversos os motivos que podem levar duas (ou mais) nações a se chocarem: rixa histórica, ofensas, divergências religiosas, disputa por recursos, tudo isso junto. Mas, novamente, é importante que isso seja bem embasado.


História

A história também é um dos elementos mais importantes de seu mundo. A depender das necessidades, nem sempre se faz necessário detalhar toda a linha do tempo ou a história de cada país, mas como exemplificado no tópico sobre organização da sociedade, acontecimentos históricos podem influenciar comportamentos, cultura, arquitetura.


Não existe um passo a passo para delinear a história de seu mundo. Eu tenho o costume de dividir a linha do tempo em eras, geralmente me baseando na história de nosso mundo (idade antiga, idade média, idade moderna, etc.), e detalho aquelas mais próximas da época em que se passa minha história e aquelas que mais influenciaram as pessoas.

O dia-a-dia de seus personagens

Todos esses pontos (cultura, política, religião) vão moldar seus personagens e influenciar em menor ou maior grau a sua rotina. Tanto a religião quanto o próprio código de moral da sociedade vão ditar o que pode ou não ser feito, e dependendo do personagem, este pode não se sentir satisfeito com a maneira como as coisas são.

Diferentes pessoas reagem de maneiras diversas a uma mesma situação, mas elas são, em partes, influenciadas por aspectos culturais, mesmo sem saber disso. Ter tudo isso em mente será importante para que você possa não somente criar um mundo complexo e profundo, mas também delinear os rumos de sua história e as jornadas dos personagens.

Coerência

Acima de tudo, seu mundo precisa parecer plausível para o leitor, por isso é tão importante definir o máximo possível de detalhes e procurar dar uma explicação para eles, mesmo que não vá utilizar todo esse material na versão final de seu livro. Desse modo, para que algum fenômeno fantástico aconteça ou determinada nação exista, deve existir uma regra por trás disso (mesmo que seus personagens não a conheçam). Seu leitor sabe que está lendo um livro de fantasia e que isso nunca poderia acontecer no mundo real, mas ele precisa acreditar que isso pode acontecer no seu mundo. E, para finalizar, um ponto muito importante: uma vez criadas as regras, atenha-se a elas, ou seu leitor irá sentir que você está inventando coisas a torto e a direito apenas para solucionar os problemas de sua história.

Como vocês viram, criar um novo mundo requer muito trabalho, e muitos dos tópicos se inter-relacionam. Por isso, no próximo post, trarei dicas um pouco mais práticas que podem servir a alguns escritores, e mais para a frente falarei um pouco sobre inserir elementos fantásticos em nosso próprio mundo.

Fontes:

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