13 de novembro de 2014

16 coisas que me fazem desgostar de um livro

Semana passada, listei as 15 coisas que me fazem gostar de um livro. Hoje, venho citar os elementos que, apesar de não serem definitivos na minha decisão de desgostar de uma história, ao menos me farão considerá-la razoável ou boa e não excelente.


Porém, o simples fato de eu ter citado uma característica não significa que utilizar-se da mesma em seus próprios livros seja um erro. Como já disse, um aspecto que me fez gostar ou não de um livro pode suscitar a reação contrária em outra pessoa.

[1] Inverossimilhança

Semana passada destaquei o quanto é importante que um livro seja verossímil, mesmo que seja um livro de ficção especulativa. E isto não diz respeito somente a um acontecimento, mas também às atitudes dos personagens, sua maneira de falar e se vestir, sua reação a um determinado acontecimento. Se por exemplo um personagem que perde alguém importante, eu espero que ele passe algum tempo de luto, que demonstre sua tristeza de alguma forma (mesmo que não seja de uma maneira óbvia, como debulhar-se em lágrimas). Mas já li livros em que o personagem perdeu uma pessoa da família e dois dias depois já parecia ter esquecido, e isso certamente me incomodou.

[2] Cenas pouco detalhadas

Também já mencionei, semana passada, que gosto das cenas com mais detalhes. Enquanto leio determinados livros (especialmente de escritores iniciantes) percebo que as cenas, especialmente cenas de ação, são escritas de maneira vaga, simplesmente contando o que aconteceu, sem descrever o cenário, sem mostrar como os personagens se sentiram. Às vezes, tenho a sensação de que o autor estava com pressa de terminar o livro, ou talvez tentando se adequar a um limite de páginas. Outras vezes, isso me passa a impressão de que o autor estava com medo de deixar a cena enfadonha.

[3] Personagens mal explorados

Já aconteceu de eu ler um livro e sentir que o escritor perdeu diversas oportunidades de explorar seus personagens. Alguns leitores provavelmente devem pensar que isto deixa uma história enfadonha, mas gosto muito quando o autor interrompe a história para mostrar que emoções são despertadas no personagem por determinada conjuntura, o que ele estava pensando e o que isso diz sobre sua maneira de ser. Livros que não exploram essas questões podem vir a me decepcionar, especialmente se isso vier acompanhado de outros fatores que me fazem desgostar de um livro.

[4] Ações que não têm consequências

Se um personagem mata outro, isso certamente trará consequências, tanto para o próprio personagem quanto para a história. Se nenhuma mudança acontece depois de um evento como esse, ou o autor não soube lidar com as implicações disto, ou o acontecimento não contribui em nada para a história e deveria ser mudado ou cortado. Esse foi um problema que eu vi em um livro, que aliás é o mesmo livro onde encontrei o problema do item 3.

[5] Pouca descrição

Descrições extremamente detalhistas são ruins, mas também não gosto de descrições vagas. Obviamente, não se faz necessário descrever cada corredor pelo qual seus personagens passam ao longo da história, mas acredito que ambientes que tenham importância para a trama (ou mesmo para o personagem) não devam ser descritos de maneira vaga. Ao menos a impressão que o lugar passa para o personagem deve estar nas páginas, pois é isso que torna, ao meu ver, uma descrição interessante. Além de mostrar um pouco da personalidade da pessoa, também é uma oportunidade para dizer como estava se sentindo. É isso é importante, se quiser tornar a história mais instigante.

[6] Quando o escritor se alonga em questões que guardam pouca relação com a trama central

Semana passada mencionei que gostava de tramas paralelas, o que pode parecer um tanto contraditório, mas este item na realidade trata de outra coisa. São aquelas cenas que não contribuem em nada no andamento da história, como o personagem que foi escovar os dentes, o diálogo com a mãe que o lembra de pegar um casaco, o beijo que ele deu na namorada (a menos que seu livro seja uma história de amor, é claro). Os leitores não precisam saber dessas coisas, e isso, sim, torna a história maçante.

[7] Má utilização da pessoa verbal

Alguns escritores parecem não acertar na escolha da pessoa verbal, seja primeira ou terceira. Muitas vezes um autor escolhe escrever em primeira pessoa e acaba perdendo a oportunidade de mostrar diversas cenas importantes apenas porque o personagem-narrador não estava presente. Alguns, para fugir desse inconveniente, alternam os pontos de vista em primeira pessoa, mas como durante a narrativa o personagem não diz seu próprio nome, é muito comum que eu leia o capítulo de Fulano pensando em Ciclano. O único livro que usava esse sistema e com o qual não tive esse problema foi O Ciclo da Morte, de Thaís Lopes.

Além disso, é importante frisar que não existe narrador onisciente em primeira pessoa. Seu personagem narrador não tem como saber o que os outros estão sentindo ou pensando (a menos que seja um telepata); pode no máximo fazer conjecturas baseando-se em sua expressão facial ou em seu modo de agir.

[8] Diálogos mal construídos

Há alguns diálogos que são escritos como se seus participantes simplesmente estivessem parados um diante do outro, apenas falando. Mas as pessoas raramente estão apenas falando. Falar é uma atividade que pode ser feita em conjunto de outras. Assim, enquanto conversam, seus personagens podem estar comendo, lavando a louça, dirigindo, matando uma pessoa. Também têm reações emocionais dependendo do que é dito, desse modo é importante mostrar quais são essas emoções (surpresa, raiva) e como os personagens as demonstram. Você por exemplo não precisa dizer que Fulano estava irritado, mas pode indicar, entre uma cena e outra, que ele bateu o copo com força sobre a mesa. Como as pessoas costumam fazer movimentos pouco delicados quando estão com raiva, provavelmente o leitor compreenderá o que o escritor quis dizer. É importante também deixar claro quem disse o quê, mesmo sem repetir os nomes dos personagens a todo momento.

[9] Final muito previsível

Como mencionei no artigo da semana passada, gosto de surpresas. O final de um livro não precisa ser totalmente imprevisível — às vezes o leitor sabe que a história vai terminar bem, mas ele não pode saber a maneira exata como será esse "bem". Histórias que apesar do final feliz trazem aquele ar de "não era exatamente como você pensava" ganham pontos comigo.

[10] Ideias mal aproveitadas

Acredito que isso seja um ponto muito pessoal; já vi pessoas satisfeitíssimas com livros em que eu vi esse problema. É o mesmo problema do item 3, mas relativo a toda a história. O autor teve uma ideia com muito potencial, mas não soube conduzi-la, e no final temos diversos temas que não foram explorados devidamente, diversas oportunidades perdidas.

[11] Detalhes em excesso

No post da semana passada mencionei que gosto de cenas e descrições detalhadas, mas para tudo existe uma medida. Às vezes o escritor se perde descrevendo como era a textura da parede sob a língua de seu personagem e como suas papilas pareciam se encaixar perfeitamente com as irregularidades da parede. Há momentos em que basta dizer que a parede era branca, ou que pareciam se encolher na sua direção enquanto ele corria pelo corredor.

Isto também pode acontecer com a trama: se ela tiver detalhes demais, passa a sensação de que a história não sai do lugar.

[12] Os personagens continuam os mesmos do início ao fim

Grandes acontecimentos implicam em profundas mudanças, seja para a melhor, seja para a pior. Quando leio uma história, espero que os personagens mudem ao menos um pouco, pois decerto todas as experiências e traumas por que ele passa ao longo da história o impactarão de alguma maneira, mesmo que ao menos um pouco.

[13] Final mal explicado

Algumas histórias deixam o final em aberto, dando ao leitor a liberdade de interpretá-lo da maneira como preferir, mas não é desse tipo de final que estou falando. Falo daqueles finais em que o autor se propôs a explicar tudo mas não conseguiu reunir todas as pontas soltas, ou que deixam a sensação de que o livro está inacabado.

[14] Estereótipos

Diferentes pessoas podem ter uma ou outra característica em comum, mas no final cada um tem suas personalidades, todas únicas. Se você utilizar estereótipos para caracterizar seus personagens, vai deixá-los rasos e ainda correrá o risco de ofender as pessoas que, de acordo com a sociedade, se encaixam nesses estereótipos. Além disso, os estereótipos tornarão sua história clichê (não que um chiclê seja necessariamente ruim, mas ter vários elementos já muito utilizados poderá tornar sua história previsível demais).

[15] Revisão ruim

Um erro ou outro é perdoável, mas já li livros (publicados por editoras tradicionais) em que a quantidade de erros ultrapassava o nível aceitável, e não apenas relativamente à gramática e à ortografia como também em relação à trama. Isso não é desagradável somente para o leitor, mas também para o escritor.

[16] Conflitos de fácil resolução

Há livros em que os personagens passam boa parte do tempo assinalando que o desafio que precisa ser vencido é praticamente impossível, mas chegamos ao final e tudo se resolve com facilidade, às vezes em algumas poucas linhas. Além de tirar um pouco da emoção da leitura, isso deixa o livro até mesmo incoerente.

E quanto a vocês, leitores: o que os faz desgostar de um livro? 

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