16 de fevereiro de 2014

[Escrita] Descrição do ambiente e dos personagens


Em algum momento em nossas histórias, teremos de descrever algo, seja um objeto, um ambiente ou um personagem. Cada autor possui sua maneira de descrever: alguns preferem, com algumas poucas palavras, dar ao leitor uma ideia de como se parece a pessoa ou o objeto, outros o descrevem mais detalhadamente, ressaltando todos os pormenores.

Podemos perceber dois tipos de descrição: a objetiva, que consiste em descrever um objeto como ele é (seja mais detalhadamente, seja de maneira mais vaga), e a subjetiva, em que o objeto é descrito sob o ponto de vista de um personagem, ressaltando a maneira como ele vê o objeto.

Abaixo, vou exemplificar com textos escritos de última hora por mim:

A sala era ampla e quadrada, com piso de madeira e paredes pintadas de cinza. Estava vazia, exceto por um sofá verde encostado à parede do fundo e um abajur postado ao lado deste, no canto. Na parede à direita havia uma janela pequena e quadrada, escondida atrás de uma cortina roxa com estampa de estrelas amarelas. A iluminação vinha de um lustre que era um globo de vidro pintado de vermelho, deixando o aposento com um tom rosado.

A descrição acima mostra o ambiente exatamente como ele é (horrível). Abaixo, vou descrevê-lo sob o ponto de vista de uma personagem da saga O Ciclo do Caos:

Ramaddeshia nunca tinha visto um aposento decorado de maneira tão hedionda — ou talvez tivesse visto, mas naquele momento não se recordava. O piso de madeira combinava com paredes cinza e um sofá verde. O sofá por si só já era horrível, com o estofado de couro rasgado. O verde claro, sob a luz rosada emitida pelo lustre (que era um enorme globo de vidro pintado de vermelho), puxava estranhamente para o marrom — não era uma cor bonita. Ao lado do sofá havia um abajur, que estava apagado — Ramaddeshia se perguntava se aceso ele iria melhorar ou piorar o visual do ambiente. Aquilo tudo, porém, não era o pior. À direita havia uma pequena janela quadrada, escondida atrás do que provavelmente era a cortina mais horrível do universo: era de tecido, roxa e salpicada por pequeninas estrelas amarelas. Sob a luz avermelhada, parecia ainda pior. Ela acreditava que, se mau gosto fosse crime, o decorador daquele aposento seria sentenciado à morte.

A descrição mais subjetiva é muito mais interessante: além de, sob meu ponto de vista, ser menos enfadonha, expressa a opinião do personagem sobre o ambiente e mostra um pouco de sua personalidade. Além disso tudo, destaca as sensações dos personagens. Certamente o parágrafo acima seria diferente se escrito sob o ponto de vista de outro personagem. É por isso que eu gosto de usá-la em meus livros, especialmente se for descrever objetos ou personagens que serão importantes para a trama.

A descrição subjetiva também pode criar um clima mais assustador. Confira o trecho abaixo, também escrito por mim:

Ramaddeshia percorreu o corredor com uma rapidez que antes não se imaginara capaz de desenvolver. Seus passos ecoavam sobre o piso de mármore, produzindo um ruído que parecia demasiadamente alto no silêncio da madrugada. Podia sentir a aproximação de seu perseguidor: a magia que ele emanava era como um zumbido alto em sua mente. Virou a cabeça para observar o início do corredor, mas pouco podia ver na fraca iluminação que vinha das lâmpadas e postes de luz no exterior.
Ela alcançou o final do corredor e dobrou à esquerda em um corredor perpendicular; torcia para que seu perseguidor ficasse em dúvida quanto à direção que ela tomara (e que, de preferência, tomasse a direção errada). Não conseguiria correr naquele ritmo por mais muito tempo…
Ramaddeshia deixou escapar um grito agudo e não muito digno quando um vulto branco se agigantou em sua direção. Ela cessou a corrida, deslizou por mais alguns metros no piso escorregadio e caiu de costas. A queda lhe arrancou mais um gemido. Ela arquejou, procurando ignorar a dor, e olhou para cima…
Maldita estátua, resmungou mentalmente, quem foi o idiota que colocou essa estátua aqui? Ele provavelmente não pensou como ela pareceria de madrugada e no escuro! Embora em geral a pessoa responsável pela decoração do palácio não precisasse se preocupar com pessoas sendo perseguidas pelos corredores durante a madrugada.

Descrever as coisas sob o ponto de vista dos personagens nos permite isso: que eles se assustem ao pensar que uma estátua branca num corredor escuro é na realidade um fantasma. Afinal, isto é algo que acontece com frequência na vida real: quantas vezes não entramos em nosso quarto de madrugada, no escuro, e confundimos aquela blusa largada sobre a cadeira com uma alma maligna?

Além disso, quando a pessoa está correndo (ou o objeto se desloca com velocidade considerável), ela não tem tempo de identificar corretamente a sua aparência — e o mesmo deve acontecer em nossas histórias.

Ainda assim, acredito que esse tipo de descrição deva ser usado com moderação — o leitor não precisa, por exemplo, saber da opinião de Ramaddeshia sobre cada cortina que aparece na história. Procuro usar essa descrição quando o personagem se vê em um ambiente diferente do habitual, que lhe causará uma determinada impressão — como uma sala decorada com mau gosto, uma casa mal assombrada ou um palácio muito esplendoroso —, um objeto importante para a trama ou um personagem. Não me demoraria, por exemplo, na descrição de uma sala de aula, ou de um ambiente familiar ao personagem — como seu quarto —, ou em um ambiente sem nada que chame a atenção do personagem.

Também não gosto muito de descrições extremamente detalhadas (e isso também vale para minhas leituras). O leitor não precisa saber qual é a textura daquela caneta que caiu debaixo da cômoda. Tampouco aprecio as descrições vagas, em que se torna difícil para o leitor visualizar o ambiente (especialmente quando neste local irá acontecer algo de importância para o personagem), como o trecho abaixo:

Ramaddeshia passara os últimos meses torcendo para que aquele momento nunca chegasse. Mas ele chegara, e mais cedo do que ela gostaria. O relógio acima da porta indicou meio dia, e dois guardas empurraram a porta para dentro. Ela a atravessou com relutância. Embora tivesse estado ali inúmeras vezes, a Sala do Trono lhe pareceu estranha e pouco convidativa, com as paredes negras e o piso escorregadio. No centro do salão, os participantes já estavam preparados para a cerimônia: a coroa repousava, reluzente, sobre a mesa. Ramaddeshia tentou conter um tremor. A coroa significava tudo para ela, exceto felicidade.

O trecho acima nos mostra que algo importante irá acontecer, mas o aposento, que parece exercer grande impacto sobre as emoções de Ramaddeshia, foi descrito de maneira bastante vaga: sabemos apenas que as paredes são pretas e o piso é escorregadio, e que há uma mesa com uma coroa sobre ela. Não sabemos, entretanto, como é essa coroa, de que tamanho é a mesa. Sou capaz de visualizar vários ambientes que se encaixem nesta descrição (que talvez fosse satisfatória em um momento de pouca importância para a história).

E quanto a vocês? Comentem: preferem descrições mais detalhadas ou mais vagas? Costumam usar a descrição subjetiva em suas histórias?

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