1 de outubro de 2013

[Escrita] Criação de personagens


Neste post falarei um pouco sobre minhas próprias experiências para a criação de personagens para meus livros e contos — e, claro, não tenho o intuito de criar receitas para a caracterização de personagens, pois cada história é uma história e cada um tem seu jeito de criar e descrever os próprios personagens. Aliás, os demais escritores que porventura venham a ler isto estão mais do que convidados a debater seus métodos nos comentários.

Pensei em escrever essa postagem devido a um debate em um grupo para escritores no Facebook (o grupo Escritor da Depressão), sobre alguns spoilers do livro A Casa de Hadesnão citarei o spoiler aqui para não estragar a surpresa de quem ainda não ficou sabendo, embora não seja um spoiler muito grave, em minha opinião. Quem recebeu o spoiler saberá do que estou falando. PEÇO QUE, CASO PRETENDAM COMENTAR NESTE POST, EVITEM REVELAR SPOILERS.

Devido à natureza do spoiler, a discussão se transformou em uma discussão sobre nossos próprios personagens, e eu percebi uma coisa a respeito de meus personagens: eu os vou conhecendo melhor conforme avanço na escrita da história (especialmente quando é um livro, em que a interação personagem-escritor é maior). Eles vão se tornando mais complexos, com dilemas complicados, e sua personalidade vai ficando mais clara para mim — torna-se mais fácil lidar com eles. Eles tomam rumos inesperados com o desenrolar da história e cada um tem sua maneira de reagir às reviravoltas da história, sua maneira de falar, seus próprios tiques e vícios de linguagem. E também têm, é claro, suas próprias ambições.

Ou seja, é impossível planejar, no início da saga, com quem o personagem terá relacionamentos amorosos no terceiro ou quarto livro, sua orientação sexual ou suas ambições e projetos paralelos à trama principal. Isso são coisas que vamos descobrindo aos poucos, às vezes conforme os próprios personagens se descobrem.

Nos livros, consigo explorar melhor os personagens, pois a história é longa e passo mais tempo escrevendo-a, contudo, tenho dificuldade de fazer isto em contos. Em geral, meus contos são focados mais na trama que nos personagens, que na maioria dos casos foram criados recentemente e, portanto, não os conheço bem. Às vezes, não sinto que eles foram tão explorados quando deveriam — ou mereciam.

Contudo, tanto em contos como em livros, sigo um método próprio para a criação dos personagens. Não foi algo que eu defini conscientemente: eu fiz dessa maneira em meu primeiro livro, e com as demais histórias simplesmente procedi da mesma maneira. Quando eu tenho uma ideia para uma nova história e a anoto, em geral tenho um esboço da personalidade do protagonista. Quando vou planejá-la e procuro encaixar as diversas ideias em uma trama coerente, começo a esboçar os personagens que terão um papel crucial para a trama, junto do protagonista. Eles começam a ter nome, descrição física e um esboço de sua personalidade e suas principais metas para esta história. Muitas coisas podem mudar conforme eu os vou conhecendo. Os demais personagens vão surgindo conforme a necessidade, e caso venham a se tornar importantes para a história, também se tornam mais complexos e seus dilemas e conflitos pessoais começam a se tornar mais claros para mim.

Em A Batalha das Fraternidades, por exemplo, tenho a protagonista e os personagens principais, que fazem parte da trama principal e estão envolvidos, no presente ou no passado ou em ambos, com todos — ou grande parte — dos acontecimentos mais importantes. Há os personagens secundários, que têm certa influência na história mas que apenas fazem parte de um núcleo — apesar de serem imprescindíveis para o núcleo em questão. Estes não são tão bem explorados, embora eu queira mudar isso, e muitos deles foram envolvidos na história por culpa dos personagens principais.

E sempre há aqueles personagens que fazem companhia para os principais por alguns capítulos, ou aqueles que aparecem uma vez, como garçons e recepcionistas, embora possam interagir de maneira inusitada com os personagens principais. Confira o trecho abaixo, que supostamente estará no terceiro volume de A Batalha das Fraternidades, cujo nome pretendo mudar para O Portal da Morte:

Aurus correu o olhar pela sala e percebeu que aqueles que tinham compreendido que Ramaddeshia zombara deles ostentavam expressões azedas. O garçom que veio atendê-los também não estava exatamente feliz com a atitude de sua rainha.
— Pois não, senhora? — seu tom estava carregado de irritação.
Ramaddeshia escolheu cinco tipos diferentes de doces, claramente procurando fazer com que Aurus gastasse o máximo possível de dinheiro. O garçom anotou seu pedido de má vontade, e então voltou-se para Aurus com um sorriso simpático.
— E para você?
— Apenas água.
O homem anotou cuidadosamente, sorriu mais uma vez e se retirou.
— Água? — Ramaddeshia perguntou, perplexa. — Você está com problemas financeiros, para não poder bancar mais de uma refeição por vez?
— Eu devia ter adivinhado que você ia aprontar alguma. — ele falou. — Você pediu um monte de comida de propósito, não?
— Estou apenas com fome. — Ramaddeshia se defendeu. — Como você é desconfiado! A propósito, o garçom achou você bonitinho.

O garçom provavelmente não voltará a aparecer no livro, mas teve uma leve influência sobre os personagens que fazem parte da trama principal. Ainda não sei se vou incluir esse trecho na história — é um daqueles trechos avulsos que escrevo quando algum diálogo surge em minha mente —, embora ele confirme algumas coisas citadas anteriormente sobre a cultura do mundo onde a história se passa e seja uma breve expressão das personalidades dos personagens e da dinâmica entre eles.

Leia um pouco sobre Myhorr, o mundo de A Batalha das Fraternidades.

PS: o trecho isolado pode dar a entender que Ramaddeshia e Aurus formam um casal. Eles realmente formam, a partir de um ponto da história, mas não da maneira convencional, como vocês poderão conferir após a publicação do meu livro em 2051.

Além da personalidade do personagem, uma das partes mais difíceis é escolher seu nome. Eu gosto de que os nomes combinem com suas personalidades. Quando estou sem ideias, procuro um nome de que gosto no Google, sem me preocupar com o significado — afinal, os pais deles não sabiam quem eles seriam na vida adulta e é absolutamente compreensível que os significados de seus nomes não combinem com suas personalidades — mas muitas vezes mudei os nomes dos personagens devido à sonoridade, ou alterei sua grafia — às vezes, simplesmente tinha a sensação de que aquele não era o nome certo para o personagem.

É mais fácil nomear os personagens de Myhorr, pois seus nomes são inventados por mim, às vezes tirado da mente de última hora ou baseado em palavras estrangeiras, erros de digitação, na tabela periódica ou em nomes de aminoácidos (isso já aconteceu quando um personagem novo apareceu e eu estava sem boas ideias para nome) e eu posso lhes dar o significado que bem entender. Porém, já cheguei a alterar seus nomes também — ainda que fossem detalhes mínimos, como a grafia. Hoje mantenho uma lista em que vou anotando os nomes inventados que possam surgir em minha mente num momento inesperado.

Outra coisa que vou definindo ao longo da história é se o personagem terá ou não capítulos sob seu ponto de vista. Geralmente, decido isto conforme as necessidades da história: se preciso narrar um acontecimento em um local x com y personagens, escolho um para narrar o capítulo (embora em terceira pessoa). Assim, pode ser que determinado personagem seja agraciado com 30 capítulos sob seu ponto de vista, enquanto outro terá uns 2 ou 3 (às vezes só 1).

Escrever esse post me fez perceber que, embora eu planeje cuidadosamente cada capítulo, de maneira a amarrar a trama da melhor forma possível, coisas inesperadas podem acontecer na história, e os personagens nos surpreendem — e nem sempre é possível planejar suas atitudes previamente. Os personagens têm sua personalidade moldada por sua história de vida e pelas reviravoltas e consequências daquilo que outros fizeram no passado da trama, e direcionam os acontecimentos do livro conforme tomam suas decisões e sofrem as consequências advindas delas — e podem interagir entre si de maneira bastante interessante. Isso é algo que eu gosto de explorar, especialmente em livros, e espero fazê-lo com êxito.

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